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terça-feira, 19 de março de 2013

A journey,



   Estou de mala na mão mas não consigo entrar no carro. Voltando ao sítio onde tudo se passou. Tenho palavras guardadas numa bolsa pequena no fundo da mala. Eu sei que não faz sentido, que mais posso eu fazer? É algo pelo qual eu estou à espera, trancada entre 4 paredes. Talvez um dia, um mês, um ano? Estou a tentar dirigir-me para o carro, mas algo me puxa em sentido contrário, uma vez mais. Um pensamento retrógrado, uma vez mais. Tento convencer-me do contrário. Uma fase de rotina, talvez? Estou cansada de tentar fazer algo que me motive. O meu horizonte encontra-se nublado. Existe uma dificuldade em perceber o que a cada dia se torna mais difuso e vago. Uma teia formou-se e envolve-me cada vez mais, quase a um ponto sufocante. E penso. Penso em todas as coisas que disse, todas as coisas que fiz. Dirijo-me para entrar no carro, porém a porta fecha-se e o carro arranca a uma velocidade que o faz deitar fumo, fazendo-me tossir. E ali estou eu, de mala na mão, incrédula. Não me peçam para explicar nenhum "porquê", pois não o vou fazer. Para além de não querer, não sei como. Pego em mim e sigo caminho a pé, ainda desnorteada. É agora que começo a questionar-me por que razão vim. Fico entre a linda da raiva e da culpa. Faço uma lista de tudo o que carrego na mala. Passado, presente e futuro, está lá tudo. Talvez um dos meus incontáveis defeitos seja fazer demasiadas suposições. Paro. Um rio, um som e uma brisa reconfortantes. Uma espécie de muro. Sento-me por um pouco, para (tentar) me recompor. Atordoada, o telemóvel toca e apenas o desligo. Agora não, agora não preciso. Precisei, mas jamais (espero eu) precisarei! Raiva, ódio, um sentimento repugnante. Desvio meus pensamentos de um caminho íngreme e fecho os olhos por um bocado. Mudo de direcção. Talvez esteja na hora... Detesto a incerteza, não obstante ela continua presenteando toda a minha vida, até mesmo nas coisas mais insignificantes! Acho que é e será (sempre) inevitável. Mesmo nestes dias que nunca mudam, eu sorrio. Passou algum tempo e levanto-me, pego na minha mala (consideravelmente) pesada, e sigo caminho. Algo iminente e indefinido se aproxima. Há medida que caminhamos ambos em sentidos inversos, cada vez mais próximos, tento entender esta coisa estranha e desconhecida. Agora, caminhando mais devagar, analiso o que se encontra perante mim, e consigo perceber que me tenta decifrar também, como se fosse um código, uma chave, uma solução... Ainda que desconfiada e de "pé atrás", estaco em sua frente e deixo que se identifique. Quando dou por mim, caminhamos ambos no mesmo sentido, de braço dado, ao mesmo ritmo, ao nosso ritmo. Apercebo-me que a mala parece agora mais leve, como se algo invisível me ajudasse a transportar-la. De caminho íngreme passa a fácil e simples. Um sentimento (surpreendentemente) doce, suave e aprazível. Tropeço, mas não caí, porque algo me suportou. Uns tempos depois, olho à minha volta e estou sozinha de novo, não há mais ninguém, não há mais nada. Depois de alguns passos, chego ao cimo de todo este caminho inclinado e íngreme. Desequilibro-me, mas (desta vez) não há nada que me suporte. Caio, repentinamente, bruscamente e sem qualquer amparo. Ainda céptica, tento (sem êxito), levantar-me. Questiono me: onde está o ser ou coisa que (supostamente) se encontrava do meu lado? Deitada de costas, surpreendida  abandonada e magoada, observo a imensidão do céu azul. Admito a minha insignificância (mais uma vez) e revolto-me, pois jurei a mim mesma que não voltaria a precisar de nada extrínseco a mim mesma. Ingénua, imatura, cega, flexível, manipulável, altamente desprotegida... Assim me encontro, de costas, deitada, (estupidamente) olhando o céu, agora carregado de nuvens escuras, pairando, ameaçadoras. Adianta de muito a indignação. Por muito que queira, não me faz voltar atrás no tempo, nem me proporciona a oportunidade de alterar minhas escolhas, ou pelo menos, repensa-las. Dias passam e eu continuo deitada, imóvel. Injusto. Talvez agora, depois de espezinhada, eu esteja pronta. Talvez agora eu tenha força para carregar a mala sozinha, pelo menos por uns tempos (bem longos). É demais, é avassalador. Frágil e assustada. Não vejo nada, não sei o que se segue, receio até. Chega, levanto-me e decido continuar. Continuo, muito, muito devagar, mas continuo. E as nuvens, uma a uma, vão desaparecendo e os primeiros raios de sol (penso eu) vão aparecendo, receosos. Rodeada de sentimentos, sinto-me cansada destes. Prefiro continuar, caminhando, quase como que automaticamente. Os raios de sol vão e vem. O caminho, recto, parece eterno, sem paragens. Olho para os lados e nada. Sigo em frente. Sempre em frente...

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